Domingo, 24 de Agosto de 2008

Convite

Que venhas, se assim o quiseres,
pois já sabes dos meus desejos.
E aproveito o ensejo,
para te dizer que se vieres,
te cobrirei de beijos,
farei o que pedires,
e se descobrires
que ficar comigo é o que preferes,
te mostrarei que não perceberás
outras mulheres,
pois serei diversas em uma só,
é só dizeres sim,
que me desnudarei de mim,
te proporcionarei delírios de prazer,
do princípio...ao fim.

Gerlane Melo

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

Hoje

Hoje, acordei com um raio de sol a beijar-me o rosto.
E ainda havia um restinho de chuva se despedindo das plantas do jardim.

Decidi que iria a pé para o trabalho e percebi, como há muito não fazia, os reflexos de luz frevando sobre as águas do Capibaribe.

Por onde eu passava, tudo me atraía: estudantes em bandos barulhentos a atravessarem uma das grandes avenidas, juntamente com os pombos que costumam se alojar, à noite, nos prédios antigos da cidade.

Sentia, o tempo inteiro, meu coração querendo acompanhar o ritmo saltitante das crianças que se dirigiam à escola vizinha ao edifício em que trabalho.

Não sei exatamente em qual instante me dei conta de que não é mais necessário esperar a primavera chegar, pois ao respirar, sentia que saía das minhas narinas um cheiro de flores. Suspeitei, então, que a primavera já havia florescido dentro de mim.

No caminho, uma colega parou para me cumprimentar. Ia embora, mas, de repente, voltou e disse-me: - Olha, há algo diferente em você hoje. Você está...especialmente...tranqüila. Ao que lhe respondi sorrindo: - Sim, hoje, eu me sinto...especialmente...em paz.

Olhando pelo vidro da janela, vi um céu de um azul intenso, o que me lembrou o intenso azul do mar. Deu-me vontade de ver o mar, não para me juntar em solidão a ele, mas para brincar com as ondas.

Já é noite, e essa sensação permanece comigo. Tirei os sapatos, quero sentir o chão.

Abrirei as persianas, convidarei a noite, o vento e a lua para jantarem comigo.

E, a ti, peço-te: - Deixa a porta do quarto encostada, irei aonde quer que estejas, pois hoje serei tua amante.

Não te falarei em versos, mas farei rimas com os nossos gemidos.

Depositarei em teu peito os meus anseios. Em teu gozo o meu desejo. Em teu espírito, pousarei o meu.

Não te prometo ficar até que o dia amanheça, pois não sei se haverá um novo dia. No entanto, se não houver, cristalizarei na epiderme da alma todos os momentos felizes que hoje, especialmente hoje, eu vivo, eu sinto!


Recife, 20 de agosto de 2008.


Gerlane Melo

Domingo, 17 de Agosto de 2008

Perspectivas

Esperarei a primavera chegar,
ela me encherá de cores.
Procurarei outros lugares no mundo,
que não seja estar entre amores,
mas sim, entre o verde e as flores.

Não questionarei os medos
ou as complexidades de outrem,
desejarei, antes de tudo,
caminhar com o bem.
Pois, estou ciente de que existe
em cada ser humano um infinito,
e outro mais além.

Aprender e viver, eis o desafio!
Superar os limites da solidão
e preencher com a essência do afeto,
o mais íntimo espaço vazio.

Gerlane Melo

Terça-feira, 12 de Agosto de 2008

Silencio...

Para ouvir o mar,
tão cheio de vida em suas profundezas, mas, assim como eu, tão só a perder-se na linha do horizonte.

Sentir as ondas a arrastarem consigo as lágrimas que me escorrem pelo rosto. Sal de lágrimas e mar a se misturar.

A areia a escorrer sob os meus pés, areia e lágrimas a escorrerem, a se misturarem.

Porque hoje não falarei nada, apenas ouvirei e sentirei.

Esperarei o sol se pôr. Escutarei as aves que costumam passar em bando a grasnar e, seus gritos que se fundem aos uivos do vento.

Ouvirei, dentro de mim, as batidas do coração, a vida e a dor a pulsarem juntas, num só ritmo. Calarei para ouvi-las, para me ouvir.

Ficarei aqui até a noite chegar. Dormirei com as estrelas, elas sempre têm muito a me dizer.

E, amanhã... Ah! Amanhã será outro dia e, quem sabe, eu o inicie falando com os beija-flores que costumam vir à varanda me visitar.

Gerlane Melo

Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

Ode à poesia

Bebo tuas palavras
tal qual vinho tinto em finas taças,
embriagando-me com seus sentidos
doces, sutis e ambíguos.
Envolvo-me nesse provocante artifício de sedução,
enredado em magistral e poética construção.
Sinto-me, assim, como aquela rosa
protegida numa redoma
mas sequiosa de teu olhar e atenção.

E se um dia eu te convidar
para comigo celebrar,
com taças rubras brindar
às palavras articuladas nas expressões
das múltiplas formas de amar;
à dádiva de te encontrar
numa teia passional de poesia,
na qual nos sentimos além dos versos,
em simbiótica sintonia,
da sensibilidade em harmonia.

O que me responderias,
se eu te dissesse,
e se limites entre nós não houvesse,
que escrever, para mim,
é como fazer uma prece,
na qual a alma se transporta
e a emoção ao sangue aquece.
Que sem a nossa poesia,
a minha alegria falece.

Gerlane Melo

Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Intimidade

Sei que me olhas enquanto durmo, e no teu olhar há uma ternura disfarçada de travesso desejo, a perscrutar quem sou e o que sinto.
Pois, saibas que também te olho e te olho... nas manhãs de céu claro, através das árvores que se refletem no vidro da janela da sala onde trabalho, e também nas tardes preguiçosas em que me imagino desenhando com beijos o esboço do teu corpo.
E sabes que me inspiras porque... inexplicavelmente, mas bem intimamente eu te sinto!


O que fazer com esse fogo
que me consome,
quando nas entrelinhas dos meus versos
escrevo o teu nome.
Mas como calar o silêncio que grita
quando, à tua simples aparição,
a minha alma se agita.
Apenas sei o que fazer
com essas luzes e cores que me inspiras:
pintar com poesia o mundo em que respiras.
E se um dia te fores,
leva-me como a lembrança
de um dos teus amores
que contigo quis deitar
em um leito de flores.

Gerlane Melo

Domingo, 3 de Agosto de 2008

Ausência

Na mente, um inquieto pensamento,
na noite fria, um lamento.
Arrebata-me a vontade de beijar tua boca,
deleitar-me com seu sabor, numa ânsia louca.
Procuro a tua mão,
e encontro ao meu lado a solidão.
Estás dentro de mim,
mas não posso te tocar.
Debate-se um desejo voraz de te arrancar,
e o meu amor, enfim, poder consumar.
Sinto minha alma se dobrar,
diante de uma fenda de espaço e tempo
a nos separar.
E quando a tua ausência
eu não mais puder suportar?...
Pergunto à dor o que fazer,
ouço-a em eco responder:
Gritar! Gritar! Gritar!...

Gerlane Melo